TDAH não está aumentando? O que o maior estudo mundial sobre TDAH revela sobre diagnóstico, prevalência e impacto global

18/07/2026

Um dos maiores estudos já realizados sobre TDAH

Um estudo publicado em 2026 na revista Molecular Psychiatry, liderado pelo pesquisador Samuele Cortese e colaboradores, analisou os dados do Global Burden of Disease 2021 (GBD 2021), o maior banco epidemiológico em saúde do mundo.

Os pesquisadores avaliaram informações provenientes de 204 países e territórios entre 1990 e 2021 para compreender quantas pessoas apresentam Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), qual o impacto do transtorno na saúde pública e como esses números evoluíram ao longo das últimas décadas.

Os resultados trazem importantes reflexões para profissionais da saúde, famílias, educadores e pacientes.

O TDAH afeta milhões de crianças e adolescentes

O estudo estimou que, em 2021:

  • aproximadamente 46,9 milhões de crianças e adolescentes apresentavam TDAH no mundo;

  • ocorreram cerca de 4,1 milhões de novos casos;

  • o transtorno foi responsável por centenas de milhares de anos de vida perdidos por incapacidade.

Esses números reforçam que o TDAH é um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais relevantes em termos de saúde pública.

O TDAH está aumentando?

Uma das conclusões mais surpreendentes do estudo foi justamente o contrário do que muitas pessoas imaginam.

Os pesquisadores observaram uma discreta redução nas taxas globais de prevalência e incidência entre 1990 e 2021.

Isso sugere que:

  • o TDAH não está "explodindo";

  • o aumento dos diagnósticos pode refletir maior conscientização;

  • mais profissionais estão reconhecendo o transtorno;

  • famílias procuram ajuda mais precocemente.

Em outras palavras, o aumento dos diagnósticos não significa necessariamente aumento da doença.

Meninos ainda recebem mais diagnósticos

O estudo encontrou maior prevalência entre meninos.

Entretanto, os autores discutem que meninas podem continuar sendo subdiagnosticadas, especialmente aquelas que apresentam predominantemente sintomas de desatenção, organização e dificuldades executivas.

Isso reforça a necessidade de avaliações clínicas cuidadosas e individualizadas.

O papel da avaliação neuropsicológica

Talvez a principal contribuição prática desse estudo seja a valorização da avaliação clínica e neuropsicológica.

Os autores destacam que o impacto do TDAH provavelmente está sendo subestimado porque muitos sintomas importantes não são considerados adequadamente.

Entre eles:

  • desregulação emocional;

  • irritabilidade;

  • dificuldades de autocontrole;

  • problemas executivos;

  • sofrimento emocional.

A avaliação neuropsicológica permite investigar:

  • atenção;

  • memória;

  • funções executivas;

  • velocidade de processamento;

  • controle inibitório;

  • organização;

  • planejamento;

  • regulação emocional.

Essas informações são fundamentais para compreender o funcionamento do paciente além dos sintomas clássicos de desatenção e hiperatividade.

A desregulação emocional precisa receber mais atenção

O estudo chama atenção para um aspecto extremamente relevante.

Os cálculos de impacto do TDAH geralmente consideram apenas:

  • desatenção;

  • hiperatividade;

  • impulsividade.

Porém, muitos pacientes sofrem com:

  • explosões de raiva;

  • baixa tolerância à frustração;

  • irritabilidade;

  • oscilações emocionais;

  • dificuldades de relacionamento.

Essas manifestações podem gerar prejuízos significativos na vida acadêmica, profissional, familiar e social.

O TDAH pode ter impacto maior do que imaginamos

Os pesquisadores também discutem que os cálculos atuais não consideram adequadamente:

  • acidentes;

  • comportamentos de risco;

  • suicídio;

  • mortalidade precoce.

Diversos estudos anteriores já demonstraram aumento desses riscos em pessoas com TDAH.

Isso significa que o verdadeiro impacto do transtorno pode ser ainda maior do que os números atualmente disponíveis.

O que isso significa para pacientes e famílias?

O estudo deixa algumas mensagens importantes:

1. O TDAH é um transtorno real e frequente.

2. O aumento dos diagnósticos não significa excesso de diagnósticos.

3. Meninas podem permanecer subdiagnosticadas.

4. A regulação emocional merece atenção clínica.

5. A avaliação neuropsicológica pode ajudar a compreender os prejuízos reais do paciente.

6. O tratamento precoce pode reduzir impactos ao longo da vida.

Conclusão

O maior estudo epidemiológico mundial sobre TDAH reforça que o transtorno continua sendo um importante problema de saúde pública.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores mostram que seu impacto pode estar sendo subestimado, especialmente quando aspectos emocionais e funcionais não são avaliados.

Mais do que contar sintomas, compreender o funcionamento cognitivo, emocional e comportamental do indivíduo é fundamental para um diagnóstico preciso e para um plano terapêutico eficaz.

Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica assume um papel cada vez mais importante na compreensão do TDAH ao longo da vida.

Referência científica

CORTESE, Samuele et al. Global, regional, and national burden of attention-deficit/hyperactivity disorder among children and adolescents, 1990–2021: results from the Global Burden of Disease Study 2021. Molecular Psychiatry, 2026.

Leitura complementar

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 2022.

  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11 para Mortalidade e Morbidade. 2022.

  • BARKLEY, Russell A. Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. 2015.

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