TDAH não está aumentando? O que o maior estudo mundial sobre TDAH revela sobre diagnóstico, prevalência e impacto global
Um dos maiores estudos já realizados sobre TDAH
Um estudo publicado em 2026 na revista Molecular Psychiatry, liderado pelo pesquisador Samuele Cortese e colaboradores, analisou os dados do Global Burden of Disease 2021 (GBD 2021), o maior banco epidemiológico em saúde do mundo.
Os pesquisadores avaliaram informações provenientes de 204 países e territórios entre 1990 e 2021 para compreender quantas pessoas apresentam Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), qual o impacto do transtorno na saúde pública e como esses números evoluíram ao longo das últimas décadas.
Os resultados trazem importantes reflexões para profissionais da saúde, famílias, educadores e pacientes.
O TDAH afeta milhões de crianças e adolescentes
O estudo estimou que, em 2021:
aproximadamente 46,9 milhões de crianças e adolescentes apresentavam TDAH no mundo;
ocorreram cerca de 4,1 milhões de novos casos;
o transtorno foi responsável por centenas de milhares de anos de vida perdidos por incapacidade.
Esses números reforçam que o TDAH é um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais relevantes em termos de saúde pública.
O TDAH está aumentando?
Uma das conclusões mais surpreendentes do estudo foi justamente o contrário do que muitas pessoas imaginam.
Os pesquisadores observaram uma discreta redução nas taxas globais de prevalência e incidência entre 1990 e 2021.
Isso sugere que:
o TDAH não está "explodindo";
o aumento dos diagnósticos pode refletir maior conscientização;
mais profissionais estão reconhecendo o transtorno;
famílias procuram ajuda mais precocemente.
Em outras palavras, o aumento dos diagnósticos não significa necessariamente aumento da doença.
Meninos ainda recebem mais diagnósticos
O estudo encontrou maior prevalência entre meninos.
Entretanto, os autores discutem que meninas podem continuar sendo subdiagnosticadas, especialmente aquelas que apresentam predominantemente sintomas de desatenção, organização e dificuldades executivas.
Isso reforça a necessidade de avaliações clínicas cuidadosas e individualizadas.
O papel da avaliação neuropsicológica
Talvez a principal contribuição prática desse estudo seja a valorização da avaliação clínica e neuropsicológica.
Os autores destacam que o impacto do TDAH provavelmente está sendo subestimado porque muitos sintomas importantes não são considerados adequadamente.
Entre eles:
desregulação emocional;
irritabilidade;
dificuldades de autocontrole;
problemas executivos;
sofrimento emocional.
A avaliação neuropsicológica permite investigar:
atenção;
memória;
funções executivas;
velocidade de processamento;
controle inibitório;
organização;
planejamento;
regulação emocional.
Essas informações são fundamentais para compreender o funcionamento do paciente além dos sintomas clássicos de desatenção e hiperatividade.
A desregulação emocional precisa receber mais atenção
O estudo chama atenção para um aspecto extremamente relevante.
Os cálculos de impacto do TDAH geralmente consideram apenas:
desatenção;
hiperatividade;
impulsividade.
Porém, muitos pacientes sofrem com:
explosões de raiva;
baixa tolerância à frustração;
irritabilidade;
oscilações emocionais;
dificuldades de relacionamento.
Essas manifestações podem gerar prejuízos significativos na vida acadêmica, profissional, familiar e social.
O TDAH pode ter impacto maior do que imaginamos
Os pesquisadores também discutem que os cálculos atuais não consideram adequadamente:
acidentes;
comportamentos de risco;
suicídio;
mortalidade precoce.
Diversos estudos anteriores já demonstraram aumento desses riscos em pessoas com TDAH.
Isso significa que o verdadeiro impacto do transtorno pode ser ainda maior do que os números atualmente disponíveis.
O que isso significa para pacientes e famílias?
O estudo deixa algumas mensagens importantes:
1. O TDAH é um transtorno real e frequente.
2. O aumento dos diagnósticos não significa excesso de diagnósticos.
3. Meninas podem permanecer subdiagnosticadas.
4. A regulação emocional merece atenção clínica.
5. A avaliação neuropsicológica pode ajudar a compreender os prejuízos reais do paciente.
6. O tratamento precoce pode reduzir impactos ao longo da vida.
Conclusão
O maior estudo epidemiológico mundial sobre TDAH reforça que o transtorno continua sendo um importante problema de saúde pública.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores mostram que seu impacto pode estar sendo subestimado, especialmente quando aspectos emocionais e funcionais não são avaliados.
Mais do que contar sintomas, compreender o funcionamento cognitivo, emocional e comportamental do indivíduo é fundamental para um diagnóstico preciso e para um plano terapêutico eficaz.
Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica assume um papel cada vez mais importante na compreensão do TDAH ao longo da vida.
Referência científica
CORTESE, Samuele et al. Global, regional, and national burden of attention-deficit/hyperactivity disorder among children and adolescents, 1990–2021: results from the Global Burden of Disease Study 2021. Molecular Psychiatry, 2026.
Leitura complementar
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11 para Mortalidade e Morbidade. 2022.
BARKLEY, Russell A. Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. 2015.

