Meu filho é desatento ou só distraído? Como diferenciar na prática

09/12/2025

É muito comum pais chegarem ao consultório dizendo algo como:

"Não sei se meu filho tem TDAH ou se ele é só distraído mesmo…"

Essa dúvida é legítima. Crianças normais também se distraem, esquecem recados, se mexem demais e "viajam" durante as tarefas. A questão não é "ter ou não ter sintomas", e sim como, quando e o quanto esses sinais aparecem – e o impacto que causam na vida da criança.

Neste texto, vamos organizar essa diferença de forma prática, em linguagem simples, para que você consiga observar o seu filho com mais clareza.

1. Toda criança se distrai: o que é esperado para a idade?

Antes de pensar em TDAH, é importante lembrar:

  • Crianças pequenas (3–6 anos) são naturalmente:

    • mais agitadas,

    • com menor tempo de atenção,

    • mais curiosas e impulsivas.

  • A capacidade de ficar sentado, prestar atenção por mais tempo e esperar a vez aumenta com a idade.

Ou seja: uma criança de 4 anos que não consegue ficar 40 minutos quieta fazendo lição de casa não é um sinal de doença – é um sinal de desenvolvimento típico.

A desatenção "normal" costuma ter algumas características:

  • Aparece principalmente em situações muito chatas ou longas.

  • Melhora bastante quando a atividade é interessante (jogos, histórias, brincadeiras preferidas).

  • Não causa prejuízo importante: a criança se vira bem na escola, nas amizades e nas atividades do dia a dia.

2. O que muda quando falamos em TDAH?

No TDAH, a dificuldade de atenção e/ou hiperatividade:

  • Está presente desde a infância (em geral antes dos 12 anos).

  • Acontece em mais de um contexto (casa, escola, outras atividades).

  • Tem frequência e intensidade maiores do que o esperado para crianças da mesma idade.

  • Gera prejuízo real:

    • dificuldades escolares (esquece tarefas, não termina atividades, reprovações),

    • conflitos com colegas e professores,

    • tensão em casa (brigas por desorganização, esquecimento, "não obedece").

Não é uma criança que às vezes se distrai. É uma criança que quase sempre:

  • perde o foco no meio da atividade,

  • precisa ser lembrada o tempo todo,

  • esquece coisas importantes,

  • parece "no mundo da lua" mesmo em situações relevantes.

3. Quatro perguntas-chave para pais

Uma forma prática de começar a diferenciar "traço de personalidade" de um possível quadro de TDAH é se perguntar:

1. Desde quando isso existe?

  • Seu filho sempre foi assim desde pequeno?

  • Ou essas dificuldades apareceram de repente nos últimos meses, junto com outros fatores (mudança de escola, separação dos pais, perda, doença, bullying)?

No TDAH, os sinais costumam ser perenes – eles acompanham a criança ao longo das fases, embora mudem de forma.

2. Em quantos lugares isso acontece?

  • Ele é desatento só em casa na hora da lição?

  • Ou você recebe relatos parecidos da escola, de outros familiares, de profissionais que convivem com ele?

Quadros relacionados a TDAH tendem a aparecer em vários ambientes. Se a queixa é muito localizada (por exemplo, "só em casa com um dos pais"), às vezes o problema está mais ligado ao contexto, à rotina, à relação ou a fatores emocionais.

3. Qual é o tamanho do prejuízo?

Pergunte a si mesmo:

  • Isso está atrapalhando a aprendizagem?

  • Está gerando brigas constantes e desgaste familiar?

  • Está prejudicando amizades ou fazendo a criança ser rejeitada pelos colegas?

  • reprovações, convocações frequentes da escola, bilhetes, advertências?

No TDAH, o problema não é "ter energia demais" ou "ser desligado", mas o quanto isso desorganiza a vida da criança.

4. Há um padrão ou depende muito do humor e da fase?

  • Ele é desatento todos os dias, em qualquer semana "normal"?

  • Ou isso oscila bastante conforme o sono, o uso de telas, conflitos, mudanças recentes?

Fatores como sono ruim, excesso de telas, ansiedade, tristeza ou situações de estresse podem causar um quadro de desatenção temporário, que não é TDAH, mesmo parecendo.

4. Exemplos concretos do dia a dia

Algumas situações frequentes em crianças com dificuldades de atenção associadas ao TDAH:

  • Tarefas escolares

    • Começa, levanta, esquece o que estava fazendo, demora muito para terminar.

    • Precisa de supervisão constante, como se "trabalhasse com a memória emprestada do adulto".

  • Rotina em casa

    • Esquece recados simples ("coloca o caderno na mochila", "guarda o brinquedo").

    • Vai buscar algo no quarto, se distrai no caminho e volta sem o que foi pegar.

  • Brincadeiras e jogos

    • Muda de atividade o tempo todo, sem concluir nenhuma.

    • Mesmo em jogos que gosta, perde a vez por se distrair, não presta atenção às regras.

  • Conversas

    • Parece não ouvir quando alguém fala diretamente com ela.

    • Pede para repetir o que foi dito logo depois.

O ponto central é: isso foge claramente do padrão da maioria das crianças da mesma idade?
Se a resposta for sim, vale investigar com mais cuidado.

5. Quando é "jeito da criança" e quando merece atenção?

Algumas pistas de que pode ser apenas um traço:

  • A criança é mais distraída, mas:

    • acompanha bem o conteúdo escolar,

    • não acumula bilhetes nem advertências constantes,

    • tem amizades preservadas,

    • responde bem quando os adultos ajustam a rotina (sono, telas, organização).

Já sinais de alerta para uma investigação mais aprofundada:

  • Professor relata há anos que a criança:

    • não termina as tarefas,

    • perde material com frequência (lápis, borracha, livros, casaco),

    • precisa de muito mais ajuda que os colegas.

  • Houve reprovações ou risco de reprovação.

  • Em casa, as brigas giram sempre em torno dos mesmos temas:

    • desorganização,

    • esquecer combinados,

    • demora excessiva em qualquer tarefa.

  • A criança começa a:

    • se achar "burra", "incapaz",

    • não querer tentar por medo de errar,

    • evitar atividades que exigem esforço mental.

Nessa hora, vale muito mais a pena organizar as informações e buscar ajuda do que ficar anos na dúvida.

6. E o papel das emoções e do contexto?

Nem toda desatenção é TDAH. Crianças:

  • ansiosas,

  • tristes,

  • passando por mudanças (separação, mudança de escola, bullying, adoecimento de alguém da família)

podem ficar mais desligadas, esquecer tarefas, perder o interesse, parecer "no mundo da lua".

Por isso, uma boa avaliação leva em conta:

  • linha do tempo (desde quando isso existe),

  • momentos de piora (teve algum gatilho?),

  • outros sintomas (sono, apetite, humor, queixas físicas).

7. Por onde começar se você está em dúvida?

Você não precisa, e nem deve, "fechar diagnóstico em casa".
Mas pode dar o primeiro passo organizando o que já está acontecendo.

Alguns passos práticos:

  1. Observar por escrito

    • Anote situações concretas em que a desatenção aparece: o que estava acontecendo, quem estava junto, qual foi a consequência.

  2. Conversar com a escola

    • Pergunte como seu filho se comporta em sala, no recreio e nas tarefas.

    • Verifique se há diferenças entre professores ou disciplinas.

  3. Considerar sono, telas e rotina

    • Crianças com pouco sono ou com uso intenso de telas (principalmente à noite) tendem a ficar mais irritadas, impulsivas e distraídas.

  4. Buscar triagem estruturada

    • Em vez de confiar só na memória e na impressão, é muito útil responder a um questionário que organize os sintomas por domínios: atenção, hiperatividade, humor, sono, função executiva, escolar, relacionamento etc.

8. Como o sintomastdah.com pode ajudar nesse primeiro passo

O sintomastdah.com foi criado justamente para isso: ajudar pais, adultos e profissionais a organizar as informações de forma estruturada, antes mesmo de chegar ao consultório.

Na prática, você pode:

  • Responder a um questionário clínico detalhado sobre o seu filho, com exemplos de situações do dia a dia.

  • Indicar informantes (como outro responsável ou professor) para responderem também, quando você achar adequado.

  • Receber um relatório de rastreio, que não é diagnóstico, mas mostra:

    • domínios com maior risco,

    • fatores de proteção,

    • áreas que merecem mais atenção na avaliação.

Isso ajuda você a:

  • chegar ao especialista com um material bem organizado,

  • ganhar tempo na consulta,

  • evitar que informações importantes se percam.


Se você leu esse texto e ficou em dúvida se seu filho é "apenas distraído" ou se pode haver um quadro de TDAH por trás desses comportamentos, um bom próximo passo é fazer uma triagem estruturada.

👉 Acesse sintomastdah.com, responda ao questionário sobre seu filho e use o relatório como base para conversar com o pediatra, psicólogo ou psiquiatra infantil de sua confiança.

Isso não substitui uma avaliação completa, mas pode ser o começo de um caminho mais claro, organizado e menos angustiante para você e para a criança.